Desculpe, mas isso não é normal.


Bonsoir, como vocês estão? Espero que esteja tudo bem por aí.

Antes de começar essa conversa, preciso que assista um vídeo. Peço por favor, que não o assista perto de crianças e adolescentes. Principalmente crianças, tendem a reproduzir comportamentos. Por isso, seja sábio. Se for fazê-lo, peço encarecidamente que, após o vídeo, tenha uma conversa sobre o assunto com essas crianças e esses adolescentes. É importante. Trata-se de uma “brincadeira” me recuso a chamar de brincadeira, o que de fato, não é uma brincadeira mas o assunto é muito mais sério do que parece. Gratidão.

O mês de Novembro mal começou, e já temos o vídeo viral do mês. Sem dúvidas, o vídeo “Trollando a Mãe 2 – Sou lésbica” foi e ainda será muito compartilhado nas redes sociais. E não é pra menos!

Nos últimos anos, deu-se uma definição para uma brincadeira que excede limites da razão: a famosa “trollagem”. Foi exatamente o que a família resolveu fazer (pela 2ª vez) com essa mulher, chamada Luciléia ou Luciane (não é nítido pra mim). Então, iremos chamá-la de Luciane. Combinado?

homofobia-existe

O vídeo sobre a trollagem feita com Luciane, não viralizou por ser engraçado, por ser cômico, por ser divertido. Viralizou justamente pelo contrário: é violento, medonho, desesperador, e MUITO revoltante. E ainda assim, é “normal”. Digo isso, pois o comportamento de Luciane, é apenas “mais um” entre muitos comportamentos que vemos (ou não) entre famílias do Brasil e do mundo todo. É uma reprodução, de algo que ocorre há muito tempo. O desrespeito, o preconceito, a violência, está presente no lar de muita gente. 

O vídeo trouxe a mim, uma reflexão profunda sobre algo que É REAL não apenas no Brasil, mas em todo o mundo: a homofobia. E sim, precisamos falar sobre a homofobia.

Homofobia significa basicamente, a aversão irreprimível, repugnância, medo, ódio, e preconceito que um indivíduo possui com relação a um grupo de pessoas, ou a apenas uma única pessoa que seja gay. Homossexuais, lésbicas, bissexuais, transexuais… Todos estes, estão sujeitos a passar por momentos completamente tensos e desgastantes, podendo inclusive, ter um final trágico, por um único motivo: assumirem quem realmente são, e os sentimentos que possuem com relação a uma pessoa do mesmo sexo.

Se você acha um absurdo, pessoas serem feridas, ou simplesmente excluídas da sociedade por assumirem seus sentimentos e sexualidade… Então, junte-se ao meu pensamento. Agora, se você assistiu o vídeo acima, e leu a definição dada para o termo, e concluiu que essa mulher teve um comportamento “normal”. Bem, precisamos conversar.

Homofobia no Brasil ainda é um problema presente e constante, havendo estatísticas compiladas pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) que sugerem que o Brasil é o país com a maior quantidade de registros de crimeshomofóbicos do mundo, seguido pelo México e pelos Estados Unidos.

De acordo com o GGB, um homossexual é morto a cada 28 horas no país por conta da homofobia (assassinatos e suicídios) e cerca de 70% dos casos dos assassinatos de pessoas LGBT ficam impunes. Segundo um estudo feito pela Universidade de São Paulo em 2014, sete em cada dez homossexuais brasileiros já sofreram algum tipo de agressão, seja física ou verbal. O país teve 650 assassinatos homofóbicos ou transfóbicos em 2012 e 2013 e desde 2008 concentra quase metade do total de homicídios de transexuais do mundo, de acordo com o relatório da organização europeia Transgender Europe.

Segundo o professor Luiz Mott, fundador do GGB e membro do departamento de antropologia da Universidade Federal da Bahia, a homofobia é uma “epidemia nacional”. Ele assevera que o Brasil “é o campeão mundial em assassinatos de homossexuais, sendo que a cada três dias um homossexual é barbaramente assassinado, vítima da homofobia.” Para a advogada Margarida Pressburger, membro do Subcomitê de Prevenção da Tortura da Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil ainda é “um país racista e homofóbico.”A Anistia Internacional apontou em relatório divulgado em 2015 que a pressão político-religiosa no país tende a bloquear o avanço de leis que poderiam proteger minorias de serem discriminadas, especialmente em relação aos homossexuais. No entanto, apesar do cenário pouco amigável para pessoas LGBT no país, uma pesquisa realizada pelo Pew Research Center mostrou que 65% da população brasileira considera que a homossexualidade deve ser aceita pela sociedade.

O texto em destaque, parte do conhecido armazenador de conteúdo: “Wikipédia”. Todas as informações, são precisas e verdadeiras.

Agora que já temos uma ciência melhor sobre a homofobia, e sobre a realidade que temos vivido (sim, essa realidade também é minha!), vamos voltar ao caso do vídeo.

Hoje (09/11), vi que o pai das garotas, se posicionou sobre o assunto. E ele disse o seguinte: “Foi tudo simulado. Simulamos uma casa homofóbica. Queríamos mostrar como isso acontece em muitas famílias. Tem muita diferença uma câmera escondida e o que fizemos. O vídeo é editado e, sinceramente, não achamos que pudesse ter uma repercussão negativa”.

Encenação? É sério que este homem, teve a capacidade de dizer que tudo não passou de encenação? Simulação?

Não me dedico a essa arte há anos, pra ler uma coisa dessas. E francamente? Nem quero entrar nesse assunto. Qualquer amador em teatro, pode afirmar que não foi encenação.

Por isso, vamos continuidade.

Separei o artigo por tópicos, para que possamos ter uma conversa mais direcionada.

  • Quando o vídeo começa, a família já está em uma discussão (não. Não é encenação). E ela já está alterada, dando vestígios de que em alguns minutos, estará completamente transtornada, caso aquela discussão dê continuidade (não é encenação).

A primeira coisa que precisamos considerar é que: se ela JÁ ESTAVA alterada quando o vídeo começou. Ou seja: não é possível saber ao certo, há quanto tempo estavam iniciando aquela “brincadeira”, e qual estava sendo o nível da conversa até então. Este é o primeiro ponto a ser considerado. Não como justificativa (a atitude dela, chega a ser insana), mas como alerta para o seguinte: seja prudente mediante suas brincadeiras. Não exceda os limites de um indivíduo (seja ele pacífico ou não), pelo simples prazer de “debochar” da cara dele. Ou em troca de visibilidade na internet. Que, convenhamos, foi exatamente o que aconteceu com essa família. Por mais que o vídeo esteja trazendo uma realidade às pessoas, quais muitas ignoram e tratam com indiferença, não há uma lição genuína a ser transmitida por esse pai e essas duas garotas. É pelo simples prazer de “trollar” a mãe.

  • Não se faz piada, com algo que não tem graça alguma. Não é engraçado. É assustador.

Quando iniciarem uma brincadeira com alguém, atente-se para o mais importante: é uma brincadeira, de fato? Ou trata-se de um assunto delicado, e complexo, que exige um tratamento no mínimo, cuidadoso…?

A brincadeira deveria ter sido paralisada imediatamente, quando Luciane começou a demonstrar um comportamento mais agressivo (não foi encenação); alteração de voz, palavrão, voz tremula, são alguns dos sinais evidentes, de que a pessoa está prestes a cometer uma grande besteira.

Quando o que era uma brincadeira, começa a tomar outra proporção e ir por outra direção, é hora de parar de “brincar” e conversar sobre o assunto. Tem algo muito errado nisso.

  • Não trata-se de um comportamento inédito (muito menos de uma encenação). Durante todo o tempo de vídeo, a família tem comportamentos como de quem sabe exatamente o que está prestes a acontecer. Especialmente o pai. É como se eles já soubessem do desequilíbrio da mãe, e estivessem gravando o vídeo, para justamente mostrar seu comportamento, e fazer disso uma piada. Teve até a edição número 1 (desculpe a ironia. Foi inevitável!).

Em minha concepção e percepção, essa não é a primeira vez que Luciane reage com agressividade (não foi encenação). Ao que me parece, ela é mais uma, entre a massa de pessoas que costumam agir dessa maneira, e são chamadas de “nervosas” ou “pessoas com personalidade forte”. E veja bem, isso não é estar nervosa. Isso não é ter uma personalidade forte. Isso é um desvio nítido de comportamento. É um surto. Um ataque de histeria. Ela precisa de ajuda. Precisa de terapia. E não apenas ela. A família precisa de ajuda profissional.

  • Essa é a ação e reação não apenas dessa, mas de muitas famílias brasileiras; brincam com assuntos seríssimos, e fazem piada, de algo que devia ser tratado com absoluta seriedade, e claro: algumas sessões de terapia.

O nível de “diálogo” que eles levam (mesmo que na “brincadeira”), é extremamente desequilibrado e desrespeitoso (de todos os lados). Só o fato de haverem postado um vídeo como esse, alegando ser uma “brincadeira”, já demonstra o desequilíbrio que parte dos pais e é evidentemente transferido às filhas. Outra coisa: o tema que escolheram “brincar”, mostra o nível de imaturidade e desrespeito que possuem. Digo isso pelo seguinte: sabemos que homofobia existe. Sabemos que a homossexualidade ainda é um assunto que precisa ser tratado com extrema delicadeza e cuidado. Sabemos que pessoas têm passado por situações muito complexas, por simplesmente não se assumirem ou por se assumirem aos seus familiares e amigos.

Sabemos que pessoas têm morrido por serem gays. Mediante isso, a pergunta que faço é: qual a motivação dessa família, ao fazer uma brincadeira como essa, com um assunto tão sério como este? A intenção em gravar o vídeo foi genuinamente positiva ou negativa?

Famílias como essa, precisam de ajuda.

  • No fim das contas, “tudo não passou de uma brincadeira”.

Mas, e se não fosse uma brincadeira? Se a garota de 15 anos, realmente estivesse assumindo sua sexualidade para sua família? Será que o prato não teria sido atirado? Será que o celular não teria sido quebrado? Será que a mesa não seria atirada? Será que a faca não seria perfurada?

  • Você continua achando tudo isso normal?

Se você realmente acha (mediante tudo que vimos e lemos aqui) que tudo não passou de uma piada, que “era só uma brincadeira”. Que “não precisamos levar um vídeo no Youtube tão a sério”, que “estamos exagerando”, que isso é “normal”. Se você assistiu esse vídeo, e mesmo depois desse texto, você continuou dando risada de tudo isso, ou se tudo isso, simplesmente não te incomodou… Então, te convido a assistir esse filme:

E se mesmo depois de assisti-lo, seu pensamento continuar na mesma direção, preciso dizer que: sinto muito por isso. Nossa conversa acaba aqui.


UPDATE: Precisei reduzir o texto original, para que as pessoas lessem o que tenho a dizer. Mas, se você quiser ler o texto na íntegra, posso te enviar por e-mail; Solicite em: pontodalira@gmail.com

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6 comentários em “Desculpe, mas isso não é normal.

  1. Luana, tenho recebido tantas mensagens… Que só cabe a mim dizer: gratidão! Imensa gratidão, por ter aberto seu coração, para receber essas palavrinhas que saíram com intensidade e profundidade do meu.

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  2. Nossa, tô sem palavras, viu? A princípio não vi o vídeo por falta de interesse (porque esse tipo de conteúdo se repete muito e eu particularmente não gosto dessas trollagens) e depois segui sem ver devido ao tanto de críticas negativas. Mas como comentei num vídeo sobre o mesmo assunto, essa tendência de fazer piada com a realidade/dificuldade do outro tá ficando bizarra.

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  3. Nossa, não eu nao consegui achar graça e nem ri em nenhuma parte do vídeo, acho que isso não chega nem perto de uma brincadeira, esse tipo de coisa não se faz, olha o nivel de stress da mãe =/
    Mas falando de coisa boa.. adorei seu blog!! é lindo, irei voltar sempre!! Um beijo ♥

    http://www.maniadepraxe.com

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