Lugar secreto – O seu lugar no mundo


Por Thaís Lira

Tenho um fascínio por quem opta pela discrição.

Fico realmente deslumbrada com quem consegue manter-se discreto, seja sobre as coisas simples, complexas, ou até mesmo diante das exuberâncias e exageros da vida. A discrição é um comportamento provido de muita sabedoria, sem dúvidas. Mas, muito mais do que isso, aprecio as pessoas que mesmo estando em evidência (seja em sua escola, em sua comunidade, em sua instituição religiosa, em seu trabalho, ou na internet), conseguem ter ciência e consciência sobre tudo o que precisa ser guardado em secreto. Ciência e consciência sobre o fato de que nem tudo se expõe; seja isso bom, excelente, ruim, ou péssimo.

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A propósito, essa “coisa do secreto, traz à minha memória, algo que aprendi há exatamente 3 anos atrás, sobre a maneira como os templos egípcios eram divididos.

Vale ressaltar: o templo descrito no Torá (ou “Antigo Testamento”, ou na Bíblia Sagrada, como preferir) tinha uma divisão muito similar aos templos egípcios. Isso porque teve a divisão egípcia como base. A única diferença entre um e outro, eram os objetos postos em cada ambiente e a maneira como os rituais sacros aconteciam.

Os templos eram divididos assim:

1. Pátio: este lugar era cercado por um muro, que tinha uma finalidade única: protegê-lo.

2. Pátio de Oferendas: esse lugar era acessível a todos. Sim! Todos podiam estar ali, independente de quem fossem. E assim,  poderiam participar das atividades que ali aconteciam. Era um “lugar público”.

3. Salas hipostilas: esse lugar era um pouco mais restrito. Era acessível apenas para os sacerdotes. Ali aconteciam todas as atividades voltadas ao desenvolvimento pessoal e espiritual de cada um deles, para que assim, saíssem dali, muito mais prontos para o ofício e para a preciosa missão que tinham em suas vidas; a propagação da fé, e claro, a colaboração com a sociedade, com o povo e com o bem coletivo.

4. Santo dos Santos: esse era, entre todos, o lugar mais restrito. Lugar considerado secreto. Era o local onde ficavam as imagens ou a imagem/representação da divindade qual eles criam. Diferente de todos os lugares anteriores, esse era acessível apenas para o sumo sacerdotes e para os faraós. Era o lugar onde eles ficavam a sós com o deus que criam, e ali, despidos de si mesmos, acreditavam receber a orientação divina sobre como deviam SER e AGIR enquanto humanos e governantes.

Saindo um pouco da esfera religiosa e trazendo isso a um contexto psíquico.

Em nossas vidas também somos assim – divididos em quatro partes.

Temos nossos muros, nossos limites, o cuidado, a proteção. Temos a “marcação de onde começa e termina o nosso espaço”. É mais ou menos assim: “o que há depois desses muros, é acessível. Mas ainda assim, há muros. Há muros, pois é preciso tomar cuidado e proteger o “meu espaço”, sem a necessidade de privá-lo completamente de quem está a minha volta”.

Somos todos assim.
Tome como exemplo, quando você está conhecendo uma pessoa nova. Você está ali, cheio de reservas, limites, regras. E isso acontece por alguns minutos, ou horas, ou dias. Mas se essa pessoa realmente quiser ultrapassar esses muros, ela consegue. Até porque, se não fosse assim, seríamos sempre muito solitários e inacessíveis.

Os muros são necessários. Mas o acesso é fundamental.

Temos em seguida, o nosso “pátio de oferendas”. O nosso lugar (lê-se “eu”) público, acessível a todos, onde todas as nossas atividades ocorrem em coletividade, onde tudo o que temos de melhor deve ser oferecido, exposto, mostrado. Onde todo o nosso social acontece. Onde todos que ultrapassaram os muros, têm acesso. É o nosso lugar “com platéia”. O lugar onde tudo o que é exposto, é -de fato- visto. Lugar onde toda a exposição do “eu” e do “outro” acontece.

Vou usar como exemplo para esse lugar, a internet. É na internet onde muitas coisas são expostas. A internet oferece às pessoas, o acesso a tudo o que foi -de fato- exposto em algum momento, lugar, tempo. Na internet, por mais que hajam termos de privacidade espalhados por todo canto, é o lugar onde tudo o que é exposto, está 24 horas por dia acessível a todos. E apesar de ser ótimo poder expôr quem somos, o que fazemos, e como pensamos para as pessoas, é preciso de três coisas: CUIDADO, EQUILÍBRIO e SABEDORIA.

  • Cuidado para lidar com tudo o que é exposto pelos outros, e tudo o que você expõe –especialmente– nas redes sociais.
  • Equilíbrio para não expôr demais sua família, seus amigos, seus sonhos, seus planos, seus objetivos, sua rotina, seus relacionamentos, sua vida.
  • Sabedoria para definir exatamente tudo o que deve ser exposto e tudo o que não deve ser exposto.

Depois do muro e do lugar público, temos os lugares mais restritos; as Salas hipostilas e o Santo dos santos/Santíssimo. 

As “Salas hipostilas”, são todos os espaços em nossas vidas, quais encontramos nossos colegas de classe ou de trabalho, nossos professores, nossos familiares, nossos amigos íntimos. Lugar onde ocorrem nossas aulas, nossos debates, nossas discussões (sempre a favor do desenvolvimento de cada um que estiver ali presente, para que assim, possam sair para o pátio, prontos e fortificados para colaborar com o desenvolvimento da sociedade como um todo). É todo lugar onde temos a oportunidade de aprender com o “eu do outro”, e de exercer o “meu eu no outro”.

As “Salas hipostilas”, são muitíssimo interessantes. Em nossas vidas, temos muitas delas. Vou usar como exemplo, a nossa sala de aula. Imagine portanto, uma sala de aula onde os alunos estão engajados, aprendendo hebraico. Tudo o que é falado durante as aulas nessa sala, tem relação com o hebraico. E todos, mesmo que diante de suas dificuldades, sabem que estão ali para aprender e que podem nesse processo, ter dificuldades um com o outro. Agora imagine se um desses alunos, resolve sair da classe e falar apenas hebraico nas ruas onde todos falam português? Imagine o quão caótico e confuso isso seria. Imagine o quanto a comunicação das pessoas com esse aluno e desse aluno com as pessoas, seria bloqueada? Ou melhor, não haveria uma comunicação fluída.

O que quero dizer, é: há assuntos, pensamentos, opiniões, que são para serem tratados apenas nas “salas hipostilas” e não no pátio. Pois, nem tudo o que é falado nas salas hipostilas, é compreendido por quem está no pátio. Até porque, conforme nosso exemplo, “nas salas hipostilas, falam hebraico. No pátio, português”.

Compreende?

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Temos por fim, o “Santo dos santos”.  O menor lugar de todos e ao mesmo tempo, o mais imenso de todos. Lugar íntimo, de intimidades, de particularidades, de segredos. Lugar Secreto. Lugar onde raríssimos acessam. Que é, geralmente, o lugar onde todas as nossas necessidades, vulnerabilidades, fragilidades, fraquezas e feridas, são expostas. Lugar onde nos despimos de toda e qualquer máscara que haja em cada um de nós. Lugar onde somos quem somos. Nus e completamente despidos. O lugar onde as lágrimas caem, o coração aperta, explode, rasga. Lugar onde o solidão é duramente exposta, a solitude é sutilmente apresentada e a quietude é singelamente anfitriã. O lugar onde viajamos para um profundo e intenso processo de autoconhecimento. Lugar onde depreciamos ou contemplamos quem somos. Lugar onde, depois de todos os muros, plateias, debates e discussões – finalmente -, entramos em conexão direta com o Divino que habita em nós. E bem ali, somos desconstruídos e reconstruídos de nossas próprias cinzas. Bem ali, tomamos consciência sobre quem temos sido e principalmente: sobre quem podemos nos tornar. Bem ali, onde toda a nossa energia que fora sugada até então, passa a ser revigorada, renovada, restaurada.

Por isso aprecio os discretos. Aprecio quem frequenta o secreto.

São exatamente essas pessoas, que ao se despir completamente, vestem-se de si mesmos, vestem-se de coragem, e saem dali brilhando mais forte e irradiando luz por onde passam.

Qual desses quatro lugares, é o que você mais tem estado?

Gratidão por me ler.


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